A carência afetiva é inerente a todas as pessoas (mesmo que em grau bem pequeno) que, de alguma maneira, se relacionam. Pensando nisso, planejei esse texto, descrevendo o tema sob o viés da Psicologia, com citações da constelação familiar, e possíveis dicas e soluções para superá-la.

Vocês conseguem imaginar a quantas anda a carência afetiva das pessoas, nesses tempos de pandemia?

Em tempos de amores líquidos, a carência já era um dos temas mais recorrentes no self terapêutico. Quando o isolamento social se instalou, ela se potencializou muito em todo mundo, sem distinção de gênero, opção sexual ou faixa etária.

A percepção de cada um

Do ponto de vista da Psicologia, uma das causas da carência afetiva é a percepção de ausência de cuidados, principalmente na primeira infância. Digo percepção de ausência, porque cada indivíduo possui “um quanto” de necessidade de afeto, que nem sempre equivale à “quantidade” ofertada.

Isso não quer dizer que sua mãe, pai e familiares não ofertaram afetividade e cuidados. Agora, a ausência real, por perda precoce dos pais, em especial da mãe, ou abandono, trará grandes prejuízos emocionais no desenvolvimento dessa criança, podendo, sim, afetar sua vida adulta.

Por outro lado, e não menos importante, a superproteção e o excesso de cuidados familiar pode causar o mesmo efeito. Hoje, já conseguimos atestar que a consequência da ausência de limites e disciplina, em crianças e na formação de adolescentes, geram adultos inseguros, imaturos e com enorme dificuldade de lidar com frustrações.

Nesse caso, a pessoa tem dificuldade de criar sua independência emocional e aprender os limites entre o que é seu e o que é do outro. Com isso, geralmente, desenvolve grande necessidade de carinho, cuidados e atenção que, em sua grande maioria, nunca é suprida por quem está ao seu lado.

Dependência emocional

Quando essa carência entra em um nível alto, surgem as cobranças e o medo excessivo de ser rejeitado. A isso chamamos de dependência emocional afetiva ou transtorno de personalidade dependente.

De outro ponto de vista, Bert Hellinger, criador da terapia de constelação sistêmica familiar, estabelece que os transtornos de personalidade, entre eles o dependente, são sintomas do desequilíbrio familiar de uma das “Leis do Amor: o equilíbrio entre dar e receber”.

Para ele, “quando tomamos ou recebemos alguma coisa de alguém, sentimo-nos obrigados a compensá-lo de maneira correspondente. Somente depois que fazemos isso é que nos sentimos livres novamente. A dependência deixa de existir, e ambos podem seguir seu caminho. Porém, quando a restituição é insuficiente, a relação continua a existir em duplo sentido: o primeiro beneficiário sente-se em dívida com o segundo, que, por sua vez, ainda espera algo dele”.

Diante dessa explicação, é interessante perceber que há uma desordem emocional quando dou mais ao meu parceiro, do que quanto ele pode ou quer restituir; e o movimento comum de quem possui dependência afetiva é o doar, cuidar e controlar excessivamente do outro, e querer isso na mesma proporção; não ter, doar mais ainda, e ter menos ainda, até que o parceiro se aborrece e deixa a relação com desculpas, muitas vezes, esfarrapadas.

Ser dependente emocionalmente acaba gerando cobranças excessivas em relação a outras pessoas, em especial, no relacionamento.

Carência e o Isolamento Social

Agora, imaginem a carência afetiva ou dependência emocional somada ao momento da pandemia, onde todos estamos, de uma maneira ou de outra, isolados e privados de contato social?

De maneira geral, todos estamos nos sentindo carentes de afeto. Até os que se intitulavam “solitários por opção”, estão reclamando de troca de contato interpessoal.

A Psicologia consegue explicar que momentos de isolamento social podem contribuir drasticamente para o surgimento e/ou agravamento de ansiedade e sintomas depressivos, justamente pelo fato de haver uma restrição imposta. É muito importante identificar esses sentimentos e sintomas, buscar ajuda e aprender a lidar com essa circunstância.

Imagine como seria estar em isolamento social durante o último grande período semelhante na história, que foi em 1918, durante a gripe espanhola.

Então, apesar de estar isolado socialmente, mantenha seus laços com equilíbrio, desenvolva empatia e flexibilidade, afinal, não é só você que está passando por isso. Faça vídeochamadas, happy hours on-line, e aproveite para treinar o “estar sozinho”, meditando, lendo um livro ou assistindo seriado com você, sua melhor companhia.

E MAIS…  

Sinais de Carência Afetiva

A carência ou compulsão afetiva está ligada ao desejo de vincular-se socialmente e pode se apresentar de diversas maneiras. Veja alguns sinais, e procure ajuda:

•dependência emocional (necessidade de outras pessoas para se sentir feliz);

•tendência à submissão nos relacionamentos;

•ciúmes e tentativas de controle;

•influenciável, dificuldade de ter as próprias ideias;

•sentimento de inferioridade;

•dificuldade em fazer planos individuais (é comum a pessoa não saber do que gosta de fazer sozinha);

•aceitação de relações insatisfatórias por medo de ficar sozinha;

•excesso de cobranças de parceiros, amigos e familiares;

•necessidade constante de atenção.