Como podemos conceituar o trauma? Antes de tudo, somente pode ser considerado trauma se o evento pressupõe repetição. A criança pode, sim, passar por um forte sofrimento na sua infância, ou mesmo no período gestacional, contudo, a caracterização do trauma depende da interpretação dela. O trauma se configura diante daquilo que se presenciou como intenso, impactante e marcante. Mesmo sendo apenas uma palavra dita à criança, pode, sim, ser considerado como trauma.

A cena traumática é a responsável por todos os desdobramentos. Será possível reiniciar uma nova história diante de alguém com traços traumáticos? Com certeza. É preciso ressignificar as cenas e as memórias. Se a pessoa não mudar, não tomar consciência, vai reproduzi-las. Tudo gira em torno das cenas, que inconscientemente ela procura reviver com total intensidade.  A lembrança dolorosa do trauma permite repetir essa experiência de medo, vazio, solidão, abusos, abandono, sem consciência. Esse processo de repetição é que permite a identificação, assim, adere-se a atitudes como sendo uma verdade.

Ao modificar em processo de análise as memórias dolorosas, a pessoa passa a ter mais controle. Ao se libertar do trauma, começa-se um novo caminho sem estar conectado ao evento que deu origem ao trauma. A psicanálise trabalha o inconsciente do paciente, fonte de riquíssimos conteúdos latentes. É com esse apoio que essa ciência se estruturou, tendo papel significativo na atualidade. Para haver cura, há necessidade de esforço e consciência. No momento em que o paciente conseguir falar desta dor, do trauma, inicia-se todo um processo de cura e transformação. Ao recordá-lo, criam-se todas as condições para dar uma resposta diante do sofrimento. Se não houver tratamento, o trauma irá se fortalecer com mais veemência e vitalidade.

Aprisionamento do sujeito

O trauma, ao aprisionar o sujeito, faz com que a cena traumática se repita.  Enquanto ele não olhar para sua condição, não ressignificar, viverá repetindo-a. O corpo, ao guardar marcas, sofrerá consequências dolorosas, afetando todos os órgãos. Quando acionada a cena, revive-se na mesma condição do acontecimento anterior.  As sensações que se sente decorrem das experiências fortes e intensas, que, ao disparar o alarme, reforça ainda mais a sua natureza. Por isso, com o tratamento adequado é possível libertar-se da neurose, possibilitando a criação de estratégias para se superar com criatividade, inteligência e saúde, sem estar preso a este sintoma.

Depois de uma experiência traumática, a pessoa passa a reviver esse ensaio e reproduzi-la em sua vida. A situação traumática pode ter acontecido ainda no ventre materno, não importa o tempo. Contudo, ela irá revivê-la em sua existência, mesmo não tendo consciência. Há muitas pesquisas e estudos acerca do tema e da sua representação simbólica.

Registro no inconsciente

O fator desencadeador é a cena traumática, que possibilita registrar no inconsciente, dor e sofrimento. Procura-se sempre repeti-la, possibilitando que o corpo sofra com todas as consequências. De um modo geral, todos nós carregamos traumas, alguns com mais intensidade do que outros. No entanto, aqueles mais fortes é que vamos repetir. Os choques traumáticos são constantes em nosso cotidiano. Exemplo disso é a realidade do Covid-19, que possibilitou esses choques em praticamente todos nós.

O desígnio deste artigo caminhou em mostrar o significado do trauma e sua ação sobre nossa vida como um todo. Quem passa por essa neurose carrega um fardo de dor e sofrimento. Pessoas que, quando crianças, passaram por fortes e intensos traumas precisam de ajuda, acolhida e amor. A escuta analítica, o falar se consegue libertar-se dos sintomas, para, com isso, reconstruir uma existência na alegria, superação e amor.

E MAIS…

Pessoas que vivem uma experiência traumática sentem-se presas numa pulsão por morte

Ao reviver esta experiência traumática, os indivíduos sentem-se presos numa pulsão de morte, num circunstância de medo paralisante, ataques de pânico e ansiedade. Tanto a mente como o corpo permanecem alertas, como se algo fosse acontecer, pois estão fixados na cena traumática. Como eles não conseguem absorver com consciência e tranquilidade o que acontece ao redor, muitos procuram se isolar, sentem um vazio existencial, falta de amor e acolhida. São pessoas sem vida, depressivas, com fortes ataques de ansiedade.

Ao pensar no que realmente o trauma representa, constata-se que este é um dos grandes problemas atuais de saúde pública, afetando não somente aqueles que passaram por situações traumáticas na infância, violência, abusos, desastres naturais; mas também pessoas impactadas pelo Covid-19 – todos de um modo ou de outro, sentimos este choque traumático. Reforço aqui a necessidade de tratamento psicanalítico no processo de análise. Trauma é algo muito sério, que afeta não somente o corpo, mas também a mente e o psiquismo.

Referência
KOLK, Van Der Bessel. O Corpo Guarda as Marcas: Cérebro, Mente e Corpo na Cura do Trauma. Trad. Donaldson M. Garschagen. Rio de Janeiro: Sextante, 2020.
FREUD. Sigmund. (1893a). Sobre o Mecanismo Psíquico dos Fenômenos Histéricos: Comunicação preliminar (Breuer e Freud). Edição Standard Brasileira das Obras Completas de Sigmund Freud, v.II, Rio de Janeiro: Imago, 1987, p.41-53.