O ano de 2020 foi um grande desafio para todos mediante o Covid-19.  O ano parecia ser propício, melhor do que 2019, no entanto, foi algo que nos surpreendeu. O vírus não trouxe apenas mudanças de rotinas, estilos de vida, trabalhos, recomeços, mas sim, choques traumáticos. Falar de trauma é trazer presente uma realidade muito atual que estamos presenciando. Freud foi quem apresentou a noção de neurose, quando estudou os efeitos pós-guerra e suas cicatrizes.

Parto da pergunta: como se define a estrutura psíquica do trauma? Sua construção reside em abusos físicos, emocionais ou sexuais, aos quais retratam níveis de violência, desvios de caráter que se perpetuam ao longo das gerações.

Superação. recomeço. esperança. São palavras que nos ajudam a enfrentar toda essa situação atual. Tudo parou, tivemos que permanecer dentro de nossas casas, respeitar o distanciamento social. Foi difícil e ainda está sendo. Não podemos abraçar, tocar nas pessoas. Estranho, pois erámos acostumados a um abraço forte, um aperto de mão, um beijo no rosto. Aprender a reiniciar em meio a tudo isso é a trajetória que necessitamos buscar.

O vírus não só alterou e modificou nosso modo de ver e perceber a atualidade, assim como afetou o nosso psiquismo. Grande parte das pessoas teve e terá choques traumáticos, tanto adultos como crianças. Foi uma mudança rápida, em uma semana tudo parou. Realmente, parecia que não era real, contudo, a crise foi muito maior do que se esperava. Com certeza, que as consequências e as cicatrizes estão sendo preocupantes.

O pós-vírus, isto é, os sintomas do choque estão se manifestando com muita intensidade. A psicanálise, ao estudar esse tema, tem, de fato, contribuído de modo satisfatório para a cura da neurose, através da análise. Quando falamos o corpo se cura, permitindo modificações de sintomas que estavam reprimidos ou recalcados.

A teoria do trauma

O conceito de trauma nasceu em Freud, no estudo sobre a histeria, nas neuroses de guerra, sobretudo, no caso clínico o Homem dos Lobos. Com o apogeu da psicanálise, abriu-se muitos campos de pesquisas e estudo diante desse tema. Hoje, é muito significativo e necessário pesquisar esta demanda tão contemporânea em nossas vidas. Sobre os efeitos do vírus, ainda não podemos conceituar um diagnóstico, no entanto, as sequelas estão sendo preocupantes. O grande nível de ansiedade, síndrome do pânico e depressão são condições reais e sérias que estamos vivendo.

Com o desenvolvimento do conhecimento psicanalítico, procurou entender os transtornos psíquicos, fatos e acontecimentos memorizados no inconsciente. Com os primeiros casos da psicanálise, observou-se os sintomas histéricos, os quais abriram caminhos para estudar a neurose. Ao analisar as neuroses traumáticas de guerra, Freud defrontou-se com um grande impasse. Sintomas oriundos dos pais se manifestavam nos filhos. Essa dúvida fez com se estudasse a fundo as causas reais e impactantes do trauma. Quando conceituamos a noção de trauma, parte-se de duas categorias: processo de identificação e a repetição. De um modo geral, todos nós temos traumas, alguns mais fortes do que outros. No entanto, quando esse processo se estrutura no psiquismo, o indivíduo começa sofrer alterações. Freud conceitua o acontecimento traumático como vivido ou fantasiado. O que marca é esse acontecimento a cena traumática que é reprimida e guardada no inconsciente.

Ao ser arquivada, ela não se apaga, mas sim, com o passar dos anos começa a se fortalecer tendo vida, consciência e existência própria. A vida da pessoa fica baseada no desejo de neurose. Todas esas experiências deixam marcas, que alteram o psiquismo, levando ao desiquilíbrio emocional e fisiológico. A mente é afetada pela cena traumática, sofrendo sequelas. Elas, segundo estudos recentes, deixam pontos brancos no cérebro, modificando o sistema de todo o organismo. Como o cérebro sofre mudanças diante do acontecimento traumático, ficam as feridas, as quais “revelam que o trauma provoca mudanças fisiológicas reais, entre as quais a reconfiguração do sistema de alarme do cérebro, o aumento da atividade dos hormônios do estresse e alterações no sistema que separa as informações importantes das irrelevantes” (KOLK, 2020, p.11).  Essas mudanças cerebrais estão sempre ativas, nunca se desligam. A pessoa parece estar sempre em alerta, com medo ou receio de que algo possa acontecer.

E MAIS…

O conceito do trauma nasceu da medicina e caracteriza-se como uma ferida

A palavra trauma se traduz em friccionar, triturar ou mesmo perfurar, caracteriza-se como uma ferida. Esse conceito nasceu da medicina que mais tarde a psicanálise utilizou para explicar diante da cena impactante que permanecia latente, viva e atuante. Nas pesquisas percebeu-se que a memória guardava informações que não estavam no alcance do bisturi. Ao investigar aquilo que a própria medicina não conseguia precisar com um diagnóstico, Freud percebeu que certos fatos e acontecimentos estavam arquivados no inconsciente. Ao serem conservadas, começavam-se manifestar na forma de sintomas sobre o corpo.

Referência
KOLK, Van Der Bessel. O Corpo Guarda as Marcas: Cérebro, Mente e Corpo na Cura do Trauma. Trad. Donaldson M. Garschagen. Rio de Janeiro: Sextante, 2020.
FREUD. Sigmund. (1893a). Sobre o Mecanismo Psíquico dos Fenômenos Histéricos: Comunicação preliminar (Breuer e Freud). Edição Standard Brasileira das Obras Completas de Sigmund Freud, v.II, Rio de Janeiro: Imago, 1987, p.41-53.