A literatura científica e não científica vem descrevendo nos últimos tempos uma série de síndromes psicopatológicas que receberam nomes de cidades, embora nada garanta que tenham, além desta, outras semelhanças em termos de fatores determinantes, precipitantes, etiologia, prevalência, prognóstico, ou de psicodinamismos passíveis de constituírem uma base latente comum para os seus sintomas.      

Abel (2014) categorizou essas síndromes em três grupos: de cidades turísticas, de sequestros (como a Síndrome de Estocolmo) e mistas. As síndromes de cidades turísticas são reações emocionais que compreendem desde perturbações leves até psicóticas, que ocorrem quando a pessoa visita determinadas localidades. As mais conhecidas são a Síndrome de Jerusalém, a Síndrome de Paris, a Síndrome de Veneza e a Síndrome de Florença.

Resposta emocional

A Síndrome de Florença consiste em uma resposta emocional desencadeada pela experiência da riqueza cultural dessa cidade. Ela foi identificada pela primeira vez pela psiquiatra italiana Graziella Magherini (1990), que a denominou como Síndrome de Stendhal, em homenagem a esse escritor francês, por conta de um relato feito por ele sobre as sensações que experimentou nessa localidade em 1817, que foram descritas em “Roma, Nápoles e Florença” (Stendhal (1826/1973).

A Síndrome de Stendhal é caracterizada por um conjunto de sintomas de natureza psicológica e psicossomática que acometem turistas estrangeiros que visitam esse município; os italianos são imunes a ela. As manifestações mais comuns são vertigens, dores no peito, diaforese, astenia, alucinações visuais e auditivas, desorientação, despersonalização, entre outras. O quadro em geral é leve e desaparece em poucos dias, mas em algumas situações a pessoa necessita de hospitalização e repatriamento. A etiologia da síndrome foi atribuída por sua descobridora ao fato de a pessoa encontrar-se em uma cidade estrangeira, com um caráter histórico e artístico dominante.

Não é reconhecida

Apesar da razoável uniformidade dos sintomas, a Síndrome de Stendhal não é reconhecida como uma psicopatologia pela psiquiatria. No entanto, algumas tentativas de sua abordagem foram empreendidas pela neurofisiologia/neuroestética e pela psicanálise, entre elas a que eu mesma realizei no contexto da perspectiva winnicottiana do amadurecimento emocional (Barbieri, 2021).

 A análise dos sintomas da Síndrome de Stendhal, à luz das formulações winnicottianas, conduziram-me à hipótese da existência de uma similaridade entre os movimentos psíquicos do autor durante a criação da obra de arte e aqueles do espectador que a aprecia. Nesse contexto, tanto a produção quanto a contemplação artística remetem o artista e o apreciador a um movimento regressivo passível de ofuscar as fronteiras entre o eu e o não eu, conduzindo o indivíduo a um estado de amorfia, ou seja, à perda de uma definição firme dos limites de si mesmo. Esse processo favorece a ocorrência de uma indiferenciação entre a pessoa e a obra, indistinção esta que atinge as noções de espaço, corpo, tempo e relações de objeto.

O espectador, assim, pode “mergulhar” no quadro contemplado, sentindo que faz parte dele, que os personagens nele representados são reais e capazes de estabelecer relações consigo e entre eles. Em outras palavras, existe uma perda de distância entre a pessoa e a obra. O sentido de tempo também é atingido por esse retrocesso a formas primitivas de funcionamento mental, sendo sustentado pelo caráter histórico de Florença. Desse modo, o indivíduo sente que o passado invade o presente e é vivido em conjunto com ele, abalando o sentimento de uma continuidade temporal e das noções de princípio, meio e fim.

Contexto específico

Esses sentimentos também podem ser experimentados por uma pessoa diante de uma obra de arte em qualquer lugar do mundo, mas o que os diferencia da Síndrome de Stendhal é o seu caráter circunscrito e pontual, isto é, eles ocorrem em um contexto muito específico e, em pouco tempo, ao sair de uma exposição, de uma galeria ou de um museu, o indivíduo retorna para a sua vida cotidiana e recupera o seu funcionamento lógico habitual. Nesses casos, a experiência de estar dentro do quadro e dele participar assemelha-se ao jogo do faz-de-conta de uma criança.

Em Florença, porém, esse retorno ao cotidiano é dificultado porque a cidade é toda ela história e arte: a cada passo o turista se defronta com obras de valor inigualável, e o passado transpira por todos os seus poros. Desse modo, Florença não oferece molduras: ela inteira é um parênteses na experiência da pessoa, extrapolando um faz-de-conta que pode terminar quando se deseja. Consequentemente, não existe possibilidade de repouso para quem a visita, não há praticamente tréguas para retornar ao funcionamento lógico e alterná-lo com os movimentos regressivos realizados. Com isso, a cidade potencializa os efeitos da arte e da história sobre o indivíduo; face a essa situação, nos casos mais graves da síndrome, a pessoa somente alcança a melhora dos sintomas após deixá-la.

E MAIS…

Manter o faz-de-conta por longos períodos de tempo

A cidade, a arte e a história interagem e atuam juntas para favorecer esse processo de regressão emocional que é capaz de desencadear a Síndrome de Stendhal em alguns indivíduos, principalmente naqueles que apresentam uma fragilidade emocional anterior.

A possibilidade de experimentar esse trajeto regressivo de maneira mais plácida e menos turbulenta parece vincular-se à extensão e à elasticidade da área dos fenômenos transicionais, ou seja, à capacidade do indivíduo de manter o faz-de-conta por longos períodos de tempo.

REFERÊNCIAS
Abel, E. L. (2014). A note on psychological disorders named after cities. Names, 62 (23), 177-182.
Barbieri, V. (2021). A beleza estonteante: contribuições da psicanálise winnicottiana para a compreensão da Síndrome de Stendhal. Monografia de Conclusão de Curso de Especialização, Instituto de Estudos Psicanalíticos de Ribeirão Preto, Ribeirão Preto, SP, Brasil.
Magherini, G (1990). Le syndrome de Stendhal: du Voyage dans les villes d’art. Éditions Paris: Usher.
Stendhal. (1973). Rome, Naples, Florence. In: ______. Voyages en Italie (textes établis, presentes et annotés par V. del Litto). Paris: Gallimard, Bibliothèque de la Pléiade (Obra original publicada em 1826).