Tem sido muito comum aparecer, a cada semana, uma matéria celebrando a ascensão de mulheres a cargos de liderança. Foi o caso de Jane Fraser, nos Estados Unidos, que no ano passado se tornou a primeira CEO do Citibank, eleita por um Conselho de Administração com dezessete integrantes, oito deles mulheres. Com essa decisão, que simboliza um grande avanço para a inserção feminina no mercado de trabalho, Fraser foi a primeira mulher a ocupar o cargo de CEO de um dos maiores bancos americanos. Aqui no Brasil, vemos esse processo se repetindo, com Juliana Azevedo, a primeira CEO da Procter & Gamble, Michele Robert, na Gerdau, Tania Cosentino, na Microsoft, Viveka Kaitila, na GE, Katia Vaskys, na IBM Brasil, e tantas outras.

Tantas outras? Não, não é o que os números mostram. Se fosse assim, a cada vez que uma mulher consegue chegar a um cargo executivo, o fato não seria comemorado e citado como algo fora do comum. Ainda falamos e comemoramos quando isso acontece, no mundo todo. Nos Estados Unidos, apenas 26% do corpo de executivos em companhias financeiras são mulheres, o que mostra o tamanho do feito de Jane Fraser por lá.

Mudança no perfil das mulheres

Sim, por aqui também estamos mudando. De acordo com dados do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA), em pouco mais de 20 anos, o percentual de domicílios brasileiros comandados por mulheres saltou de 25% para 45%, devido, principalmente, ao crescimento da participação feminina no mercado de trabalho. Isso levou a uma mudança no perfil dessas mulheres. Até pouco tempo atrás, as mulheres que estavam nessa posição era porque tinham se separado dos maridos. Hoje, quase metade delas está à frente da casa, continuando a viver com seus companheiros.

Mas, e quando houver finalmente essa igualdade entre homens e mulheres nos cargos de chefia? Como serão as empresas? Qual será o impacto disso? Essas perguntas são muito pertinentes porque estamos em um momento de grandes mudanças, e não só as trazidas pela pandemia. Mudança de formas de gestão e, principalmente, mudança de modelos de liderança.

Talvez, essas mudanças façam com que não se atinja nunca o equilíbrio entre homens e mulheres em cargos de liderança. Não porque elas vão aumentar as desigualdades, mas porque, simplesmente, as empresas caminham para mudar sua estrutura interna e adotar novos formatos de organização do trabalho. CEOs e Líderes individuais vão deixar de existir, substituídos por lideranças compartilhadas, descentralizadas, muito mais eficientes e operacionais.

O feminino na posição de comando

O futuro está a caminho, já é uma realidade em algumas organizações, mas enquanto não chegamos a ele, vamos entender um pouco mais sobre as lideranças femininas e o que trazem de diferença. Existe essa diferença?

No passado, quando tínhamos mulheres em posição de comando, muitas vezes isso queria dizer lideranças masculinas desempenhadas por mulheres. Havia o entendimento de que o padrão a ser reproduzido era o mesmo de sempre, uma certa agressividade, comando, controle e direção, alguma ostentação e abuso de poder, com seus inúmeros erros, sem espaço para mudanças.

Só que agora, as coisas mudaram e é preciso romper com esses padrões velhos e completamente ultrapassados, que não encontram mais lugar em um mundo como o nosso, volátil, incerto, complexo e ambíguo e, mais ainda, um mundo que pede mais humanidade, mais autonomia e responsabilidade. Estar preparado para mudanças é uma obrigação incontornável. Elas virão mais rapidamente a cada vez em maior número, 2020 acabou de nos mostrar isso. E 2021 não deve ser diferente e pode completar a lição.

Liderança mais inspiradora

Para pensar em um exemplo no mundo corporativo, na Natura, a Diretora de Marketing de relacionamento, Penélope Uiehara, liderou um projeto onde a empresa usa o conceito de IDH – Índice de Desenvolvimento Humano – para avaliar a qualidade de vida de suas revendedoras, que são mais de 1,2 milhão de pessoas, espalhadas por todo o país. Aliás, nesses números, os homens são a minoria: 8%. Neste programa, a Natura aborda educação financeira, violência doméstica (e Direitos da Mulher, de forma geral) e até fake news, como forma de ajudar na saúde mental e diminuir os impactos da pandemia.

Claro que não é o fato de ser mulher que vai tornar uma líder melhor que um homem, mas sim as características: liderança mais humana, inspiradora, que lidere pelo exemplo, que seja um facilitador, tenha e compartilhe um propósito claro, conheça de verdade seu time, estimule a consciência e o desenvolvimento das pessoas. E o fundamental: que entenda que vivemos um mundo complexo e somos seres complexos.

E MAIS…

A gestão da pandemia sob o comendo de líderes mundiais mulheres  

A pandemia nos colocou em uma posição de absoluta fragilidade. Tivemos que aprender a conviver com uma ameaça, sem conhecê-la e sem saber como combatê-la. Informações desencontradas, poucas certezas, dúvidas imensas, muitas notícias falsas. Não é uma regra, mas é interessante notar que países que se saíram notoriamente mal na gestão da pandemia, como Estados Unidos e Brasil, tinham líderes que representavam exatamente um tipo de liderança masculina anacrônica, tóxica e perigosa para seus liderados, enquanto países comandados por mulheres, como a Nova Zelândia, de Jacinda Arden, ou mesmo a Alemanha, de Angela Merkel, se saíram melhor.

Uma cena chamou muito a atenção: Merkel, no Parlamento alemão, anunciando medidas mais restritivas para o fim do ano e sendo interrompida por um deputado, contestando-a e falando dos prejuízos para a economia. Até esse momento, Merkel lia protocolarmente o seu discurso, mas a partir daí, passou a falar de improviso, transparecendo uma preocupação genuína com a população, e com tal ênfase que acabou por calar o homem. Ela sabia que estava tomando medidas impopulares – como são as de limitação no comércio no mundo todo – mas de extrema importância. Manaus deixou isso bem claro, quando voltou atrás nessas medidas, ajudando a mergulhar a cidade em um caos completo. Líderes populistas e bonzinhos também não são sinônimo de líderes efetivos.