Estamos acostumados a usar listas. Temos a impressão de que ir ao supermercado é mais eficiente com uma relação predeterminada anotada no celular, que o dia de trabalho será mais produtivo se houvermos elencado o que fazer ou que seremos mais felizes seguindo a relação de resoluções de início de ano.

Sem dúvida o planejamento auxilia a localizar-se no tempo e no espaço, a encontrar meios para dar lugar ao próprio desejo. Mas somos testemunhas de que entre o que planejamos e o que acontece há uma distância enorme. Não basta a lista, há que comprometer-se com ela.

Formação do analista

Isso vale também para o tripé que sustenta a formação do analista: análise pessoal, estudo teórico e supervisão. Não é factível formar um analista em um tempo determinado, com a lista de tarefas a cumprir. Há muito mais em jogo.

Trata-se de um jogo arriscado, de paciência e de fôlego. Para os que correm, podemos pensar que a ideia se aproxima mais de uma maratona do que de uma prova de 5km. Aquele que pretende correr 42km tem que se preparar seriamente, levantar-se – mesmo naqueles dias em que o cansaço da rotina o convida a desistir –, calçar o tênis e iniciar o treino. Não basta ter os acessórios adequados, a dieta balanceada e a planilha individualizada, se o sujeito não se dispuser a trabalhar sério em seu projeto. É possível correr essa distância? É, mas vai levar tempo. Quanto? Ninguém sabe, depende daquele que decide correr.

Processo analítico

Assim também é o processo analítico. É possível chegar ao afeto de satisfação característico do final de análise? Sim. Quanto tempo leva? Não sabemos, depende daquele que decide se analisar. O processo analítico não é sempre prazeroso, há sessões que são muito duras. Inúmeras dificuldades surgem: questões financeiras, trabalho, trânsito, resistência familiar e de amigos quando as mudanças pessoais se iniciam. Elas existem, ninguém nega. Mas, como o futuro maratonista que levanta para enfrentar a si mesmo no treino diário, deitamos no divã para escutar o nosso próprio desejo.

É necessário que haja, do outro lado, um analista que sustente esse lugar junto a seus pacientes. E não é qualquer analista. É esse analista para esse paciente – tem algo do analista que faz laço, que ecoa no sujeito que o procura e isso faz o tratamento possível: a famosa transferência. Conceito fundamental da psicanálise, é a transferência que a sustenta e está intrinsecamente implicada nos afetos despertados durante o processo analítico.

É do paciente o trabalho essencial na cura. Uma volta a mais pelas vias da linguagem é feita, com suas idas e vindas. Assim os passos vão sendo dados, a distância vai sendo percorrida. Não se tica sessões da lista, não se conta o número de horas que se passou deitado no divã.

Enquadrado em padrões

É da ordem da picaretagem oferecer uma graduação em psicanálise e afirmar que essa considera o tripé da formação em sua grade. Tentar enquadrar a análise em padrões rígidos, horas determinadas e exigências universitárias é violentar os princípios propostos pelo próprio pai da psicanálise. Análise não cabe em nenhuma grade curricular, seu produto não é passível de avaliação acadêmica. Não se tira dez, sete ou zero na análise. Ela é processo. Seu produto é verificado só depois, no ato do sujeito ao fazer-se fiel ao seu desejo em sua existência. Isso é trabalho de toda uma vida.

E MAIS…

Mercado de educação

Considerar a análise, a supervisão e a formação teórica como itens de uma lista a cumprir é escamotear que o inconsciente é atemporal. É padronizar o sujeito segundo as regras do mercado de educação. Para a psicanálise isso é ético? Não, não é. Você pode se matricular nesse curso? Pode. Azar o seu. Está comprando gato por lebre. Quer formar-se psicanalista ou terapeuta? É como ter anotado na lista do mercado carne e ter levado a carne de soja. Tudo certo com a carne de soja, mas foi isso que foi comprar? Ticou da lista?